Glúten x Diabetes Tipo 2: existe alguma relação entre eles?

Se você já pesquisou sobre dietas de emagrecimento por aí, provavelmente já deve ter encontrado algo sobre a restrição de glúten para perda de peso. Isso porque tirando o glúten você também elimina eles: os carboidratos. Mas, sabia que o desequilíbrio dele pode ocasionar justamente o ganho de peso?

Pois é. Além disso, ainda não existe um consenso sobre os benefícios da dieta sem glúten além da doença celíaca, uma intolerância permanente ao glúten, que atinge apenas 1% da população, e que tem como único tratamento a retirada total dessa proteína – encontrada no trigo, cevada, centeio e malte – da dieta.

O tema é polêmico, mas não faltam estudos sobre ele. A Universidade de Harvard, por exemplo, fez um levantamento recente de um estudo realizado durante 30 anos com quase 200 mil pessoas. O resultado? Quanto menor a ingestão de glúten, maior a chance de ter diabetes tipo 2. Isso porque 15.942 pessoas seguiram a dieta sem glúten e desenvolveram o diabetes neste período.

Isso resultou em diversas publicações que associaram a dieta sem glúten ao maior risco de diabetes. Mas será que realmente funciona assim?

De acordo com Beatriz Botequio, nutricionista da Equilibrium Consultoria e consultora do SABE portal, o que de fato acontece, é que esse resultado aponta a ausência de nutrientes relacionados à prevenção do diabetes tipo 2 e o aumento e peso com a dieta sem glúten, e não a quantidade de glúten como fator determinante no resultado do estudo.

“É provável que o desenvolvimento do diabetes tipo 2 com a dieta sem glúten esteja relacionado à falta de fibras, que são importantes para controlar a absorção de açúcar no sangue”, afirma a nutricionista.

Para explicar de forma mais direta, podemos dizer que ao retirar o glúten da dieta, há  também menor ingestão de cereais integrais, que acabam sendo substituídos por outros tipos de alimentos, como a farinha de arroz, tapioca ou polvilho – naturalmente pobres em fibras e com alto índice glicêmico.

E não para por aí, em 2016, a revista Clinical Nutrition publicou um estudo de revisão, concluindo que a dieta sem glúten pode aumentar o risco de doenças crônicas porque geralmente é composta por farinhas refinadas com carboidratos de alto índice glicêmico, além disso, pode ser mais restrita em nutrientes como ferro, vitamina D e folato.

A nossa dica é: fique atento! O consumo de grãos integrais é essencial para a manutenção da saúde. Uma revisão publicada na Revista British Medical Association, em 2016, comprovou seus benefícios na prevenção de doenças inflamatórias e crônicas, como diabetes, câncer e doenças do coração.

“Este estudo mostra a relação do consumo de grãos integrais, que são ricos em fibras, com menor risco para a obesidade e diabetes tipo 2, dessa forma, é interessante manter pães e massas integrais em uma dieta equilibrada e saudável”, conclui Beatriz.

E o que a gente pode concluir com isso? Não é a falta de glúten que leva ao diabetes, e sim uma dieta inadequada em nutrientes importantes para a prevenção desta doença. A retirada do glúten da dieta deve ser feita apenas sob orientação médica e diagnóstico da doença celíaca, ok? Além disso, o consumo de carboidratos provenientes dos pães, arroz, biscoitos, batata e mandioca, por exemplo, deve fazer parte da rotina alimentar, preferencialmente os integrais, como importante fonte de energia e nutrientes.

 

Referências:

Aune D, Keum N, Giovannucci E, Fadnes LT, Boffetta P, Greenwood DC et al. Whole grain consumption and risk of cardiovascular disease, cancer, and all cause and cause specific mortality: systematic review and dose-response meta-analysis of prospective studies. BMJ. 2016 Jun 14;353:i2716.

Vici G, Belli L, Biondi M, Polzonetti V. Gluten free diet and nutrient deficiencies: A review. Clin Nutr. 2016 Dec;35(6):1236-1241.